Entenda como funcionam escritórios modernos, belos, poderosos, irritantes...

CEO da Ingredion para a América do Sul, Ernesto Pousada, 50 anos, fez questão de ouvir todo mundo. A equipe de 170 pessoas foi dividida em nove grupos, representados, cada um, pelos “embaixadores da mudança”. Eleitos por seus pares, eles participaram ativamente da transferência da Ingredion para o Rochaverá, um dos mais modernos conjuntos empresariais da capital paulista. Ajudaram até na escolha dos móveis. E, em 10 de dezembro, a companhia trocou os dois andares de um edifício dos anos 80, na Vila Guarani, pelo quarto andar de uma das quatro torres do Rochaverá. Eles foram de um espaço compartimentado e escuro para 1,6 mil metros quadrados, abundantes em verde e luz natural. Mobiliário leve, luminárias de papel arroz, poucas paredes. Finalmente, comemora Ernesto, a Ingredion tem um escritório condizente com o seu DNA.

Fundada em 1906, na pequena cidade de Westchester, no estado americano de Illinois, a Ingredion assina inovações importantes na área da alimentação, com um total de vendas líquidas, em 2017, de US$ 5,8 bilhões — 17% deles referentes à América do Sul, onde o Brasil é o principal mercado. A filial brasileira, por exemplo, já foi premiada pela Fi Innovation Awards pela criação de uma farinha de leguminosas com alta concentração de proteína e fibra e baixo teor de gordura — uma opção às fontes proteicas alergênicas, como o leite. “O escritório antigo não inspirava a colaboração e a inovação, tão necessárias em nossa atividade”, diz Ernesto, engenheiro mecânico com especialização em administração.

Aberto, com salas envidraçadas de diversos tamanhos, o escritório da Ingredion dispõe da “área do silêncio”. Lá, a quietude sepulcral facilita a realização de tarefas que exigem profunda concentração. Pequenos nichos de estar, em geral perto de janelas, espalham-se pelo ambiente. Um deles é o canto preferido de Ernesto. “De manhã, bate um solzinho... Até assuntos mais confidenciais eu trato ali. É só reduzir um pouco o tom de voz...”, comenta.

O CEO conta que no processo de mudança quis deixar o escritório com aspecto de casa do interior. Foram oferecidos à companhia andares mais altos, onde a vista é, segundo Ernesto, “mais poderosa”. Mas ele quis o andar que fica no mesmo nível do topo de um dos estacionamentos, onde foi erguido um jardim. “Em vez do home office, a ideia hoje é criar o office home”, diz o arquiteto italiano Enrico Benedetti, do escritório paulistano Arealis. “Ou seja, áreas onde as pessoas se sintam como se estivessem em casa.” É a humanização dos espaços corporativos, define a arquiteta Priscilla Bencke.

De fato, a exemplo dos layouts corporativos mais modernos, na Ingredion a copa ocupa um dos lugares centrais. Ponto de encontro, sobretudo no meio da manhã, hora da entrega das frutas. De vez em quando, o pessoal se empolga e o barulho incomoda. Quando pedem para baixar o volume, algumas pessoas sugerem subir paredes em torno da área de convivência. “Mas, aí, acaba o conceito... De jeito nenhum”, reage Ernesto.

Quem também vira e mexe pede para voltar aos hábitos antigos é a secretária de Ernesto. Na Ingredion, apenas a cúpula da empresa (CEO, vice-presidente e diretores) e as secretárias têm uma área determinada no escritório, mas sem lugar marcado. O resto do espaço não tem dono. As mesas, os computadores, os telefones... Nada é de ninguém; tudo é de todos. A única área fixa é a dos armários. Ali, cada um tem o seu. A assistente de Ernesto ainda não se conformou em não ter uma “caixinha” onde colocar os documentos que precisam ser analisados pelo CEO — para desespero dela,  ele se força a mudar de mesa todo dia, em um exercício de desapego. Recentemente, Ernesto encontrou a tal “caixinha” dentro de seu armário. “Ao tirarmos as pessoas da sua zona de conforto, a princípio elas tendem a querer voltar à situação anterior”, diz.

Nesses momentos, quando são obrigadas a pensar diferente, a ver a vida sob uma nova perspectiva, novas conexões neurais são estabelecidas e a criatividade aflora, defende Ernesto. “Ninguém aqui é professor Pardal, para ter uma ideia genial do nada. As boas ideias surgem de pequenas coisas”, completa, referindo-se ao personagem da Disney. “E meu papel como líder é estimular isso.”

Apesar do pouco tempo na casa nova, já é possível notar mudanças significativas na dinâmica da equipe. Uma das mais marcantes é a agilidade com a qual algumas questões passaram a ser resolvidas. Muitos assuntos que antes só seriam elaborados em reuniões, hoje são discutidos rapidamente, conforme os interessados “colidem” pelo escritório. Com a ida para o Rochaverá, aos poucos, a equipe da Ingredion mudou até o jeito de vestir. Estão todos mais informais. As mulheres trocaram o salto alto pela sapatilha. Os homens abandonaram o terno. Aconteceu com o próprio CEO.

Orgulhoso, Ernesto faz questão de mostrar o tênis e as meias baixas — “estou até de canelas de fora”. Ele ainda não conseguiu ir para o trabalho com a camisa para fora da calça, mas, garante, um dia chega lá. “Esse sou eu... Se você me encontrar no final de semana, me verá assim”, entusiasma-se o CEO. “Estou mais feliz porque não represento mais um papel.” Escritório tem de ser também lugar de gente feliz.



fonte: Época Negócios - https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2019/02/entenda-como-funcionam-escritorios-modernos-belos-poderosos-irritantes.html


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